
I will post this later in english, since its a long post and just a short edit from a bigger one from the book project. Its about the last weekend trip, insights and moments of true happines. thank you!
- x - x -
Acordei as 7:10, olhei para o relógio e decidi ficar mais 10 minutos deitado, liguei a função “soneca” do despertador e virei para o lado. Pelas frestas da janela eu não via o sol que já devia estar na direção exata de me acertar os olhos. A noite de sexta havia sido de céu aberto, com uma linda lua cheia e até algumas estrelas, contradizendo toda a chuva que caíra durante a semana. Então a perspectiva de um dia nublado não animou muito. Os 10 minutos passaram como se fossem 2 e novamente a musiquinha intencionalmente cafona do despertador soou e decidi levantar, teria um dia cheio pela frente. Tomei o café da manhã ainda repassando as coisas que devia colocar no carro: mochilas, tênis, prancha, documentos, comida, blusa, o tempo está feio, acho que vou levar mais blusas, parafina, leash, bermudas, escova de dente e toalha.
Tomei um café demorado, me despedi de quem já estava em pé e as 8:05 fechei o portão da garagem. Pensei em abastecer na estrada.
Ainda dentro da cidade, comecei a avaliar a situação toda, tinha pela frente mais de 300 km, acompanhado de alguns bons CDs, minha prancha e muita coisa pra pensar. Comecei analisando as pessoas que estavam na rua. Alguns poucos carros pelas ruas perto de casa, tantas pessoas indo sabe-deus-pra-onde fechadas em seus carros, com seus rádios e pensamentos ligados em diferentes estações, alheias a tudo o que acontece e indiferentes a minha presença e estado de espírito. Vi algumas pessoas com roupa de festa com um passo arrastado e expressões cansadas, frutos de uma noite longa, eu nunca trocaria o que sinto agora por qualquer festa ou social-happening onde o relógio move-se um gole de cada vez, pensei me achando a pessoa mais sortuda do mundo.
Pouco antes de chegar a região metropolitana a estrada já começa a se mostrar aberta, pouco transito e a promessa de uma viagem tranqüila. Comecei a cantar mais alto acompanhando a musica, decidi abastecer o carro somente quando chegasse perto da reserva. A estrada rumo ao sul do país partindo de Curitiba é extremamente bem sinalizada e praticamente sem buracos até Florianópolis, dali em diante existe um trecho em obras onde a pavimentação é basicamente composta por buracos, mas como o destino final era Floripa, não me preocupei com isso.
Até Joinville a estrada é cheia de curvas e um tanto perigosa, com a rodovia vazia fica mais tranqüilo, mas mesmo assim tomar as devidas precauções é muito importante. Chegando a Joinville as tradicionais nuvens, que sempre marcam minha passagem por lá, deram as caras, um garoa fininha começou e assim como todas as vezes que passo por ali, pensei em diversas coisas que a cidade representa pra mim, tanto as minhas fases de adolescente-praga-contestador, quando falava o que pensava sem pensar o suficiente antes de falar, como as inúmeras visitas ao litoral em anos recentes, a formatura do meu primo começo do ano, com a churrascaria de garçons hilários. Mas sem exceção, todas as vezes que passo aqui eu penso em visitar ou ligar para todas as pessoas a quem incomodei ou causei desconforto ao longo da vida, é estranho como a cidade tem esse efeito, de causar em mim, não um arrependimento, mas uma vontade de reparar qualquer dano causado. O que me incomoda é o fato da lista crescer a cada vez que eu passo por lá...
A chuva me acompanhou até Piçarras, passando por Barra Velha, onde aprendi a mergulhar direito muitos anos atrás, onde passei alguns bons e divertidos momentos em uma época de pouca preocupação, vejo facilmente o prédio onde me hospedava e um pouco mais a frente percebo que a laje um pouco distante da praia está quebrando clássica, sinais de boas ondas no decorrer do final de semana, o que colocou um sorriso no meu rosto ao mesmo tempo em que me encheu de temor, pois sabia que na Ilha a coisa é um pouco mais complicada do que as ondinhas paranaenses... Seria a primeira vez que surfaria nas praias que me esperavam. E como descobriria no domingo, o condicionamento necessário para surfar por ali é o que constrói o físico dos surfistas locais.
Passando Itajaí já faltava pouco, estava um pouco preocupado, pois precisava ainda ligar para o Esquilo e já havia passado das “10 e pouco” que eu havia anunciado como horário de chegada. Ao cruzar a ponte já eram 11 e pouco, meu celular insistia em não funcionar direito, a única lembrança que tinha era de que precisava procurar um terminal do qual não lembrava o nome, e uma remota memória de que ele morava perto da UFSC, decidi tomar este rumo enquanto continuava a tentar ligar. Consegui falar com ele quando estava a algumas quadras da Universidade e marcamos de nos encontrar lá. Realmente ele morava perto e chegou rápido, uma ligada para o Niko para avisar de nossos planos, uma pequena parada na casa do Esquilo para deixar um dos carros e partimos para a casa do Onii, na Lagoa da Conceição, onde esperaríamos os outros e iríamos almoçar.
A tarde o treino na UFSC acabou virando uma Jam Session tranqüila, conheci alguns dos dedicados traceurs locais, fiquei muito feliz com o nível técnico do pessoal, sinal de treinos dedicados e seriedade. Mesmo com algumas gotas finas a chuva não apareceu pra valer, permitindo explorar bem o campus e algumas possibilidades muito boas. É bom treinar em um lugar aberto assim, onde as opções de obstáculos encontram-se longes umas das outras, diferente do que estamos acostumados em Curitiba com treinos mais “enxutos”.
Após o jantar voltamos para a casa do Kalebe, onde travamos a tradicional luta contra os mosquitos e passei algum tempo admirando a lua cheia enorme e a silhueta da cadeia de montanhas atrás da casa do Kalebe, com destaque para a Pedra Branca muito próxima e algumas tímidas estrelas, foi o terceiro momento iluminado do dia, o primeiro fora na estrada cantarolando sozinho, o segundo andando na UFSC pensando longe quando um pingo me acertou o rosto, isso sem contar pequenas coisas que me alegraram durante o dia, como a recepção do Kalebe, o primeiro giro do dia ainda no estacionamento da UFSC, o jantar a base de camarões. Estes momentos tem se repetido nos últimos meses com uma freqüência cada vez maior, quando percebo tudo o que está acontecendo em volta e simplesmente fico feliz e grato por tudo, literalmente tudo mesmo.
Domingo pela manhã demoramos a levantar, deveríamos tomar café e ir para a casa do Onii, para então decidirmos para qual praia ir surfar. No caminho pegamos o Juca, um traceur dedicado e promissor que surfaria conosco, e o Digo, outro traceur com experiência e que já demonstra o “gene de floripa” e que seria o nosso cinegrafista. Devido ao vento decidimos pelo meio da Joaquina, longe do crowd, o que facilitaria muito a minha vida e foi então que começou uma das melhores partes da viagem.
A água estava gelada, extremamente gelada para os padrões paranaenses de água gelada, mas mesmo assim, na ausência de roupa de neoprene, uma lycra preta para ajudar a esquentar no sol, um aquecimento breve e coragem pra enfrentar as ondas de meio a um metro que chegavam com uma formação um tanto estranha, já com vento, mas ainda assim diferente de tudo o que já surfei. A onda tinha pressão, força, porem no momento em que cava é muito rápida, o que obriga o surfista a entrar na onda ainda antes de ela cavar, para garantir a velocidade, mas isso implica remar numa onda gorda que não tem força para te carregar ainda. Estranho e exige uma técnica especifica, a qual eu não dominei... A meia onda que peguei fechou e levei um tombo daqueles, levando mais 2 da série em seguida.
Depois de um tempo na água e já sem sentir direito mãos e pés, decidi sair. Peguei uma saideira fraca e saí em linha reta. O corpo tremendo, tendo espasmos nas coxas por causa do frio. Comecei a correr na areia fofa para esquentar o corpo com o exercício e com o sol. Os outros não surfistas já haviam chegado e se encontravam na areia girando e divertindo-se com coisas diversas. Após me secar decidi ficar um pouco ao sol, sentei observar tudo o que acontecia a volta, ondas, pedras, dunas, aves, o vento, a areia voando, o sol, e tudo isso formando uma paisagem maravilhosamente com aparência de verão, em pleno inverno catarinense. Decidi pegar meu livro para ler um pouco enquanto não decidiam ir embora, sentado na areia parando de tempos em tempos para observar alguma gaivota passar rasante entre as ondas, ou para olhar o vento nas gramíneas ao meu redor e uns 5 minutos olhando o trabalho de uma formiga para reencontrar o rastro de seu grupo. Em uma destas pausas para observar o que acontecia, levantei os olhos e vi uma enorme pipa/papagaio/pandorga/o seu nome regional para estas coisas que voam presas por uma linha, de um kite surfista que passava entre as ondas, aquela cena colorida e tão tipicamente de verão me colocou um sorriso enorme no rosto, olhei para o Kalebe e ele estava tentando uma acrobacia nova, decidi largar o livro e ajudá-lo na tentativa.
Começou então uma sessão de giros na areia, o Onii havia cavado um buraco para se proteger do vento sentando dentro dele, e este virou o obstáculo a ser saltado com a acrobacia que fosse possível. A diversão durou até o Kalebe sentir dores e o Digo torcer o pé na areia fofa.
Após uma longa espera em uma barraca de lanches, por um açaí demorado, que nas condições em que estávamos, cumpriu a função de alimentar os corpos fadigados, começou a jornada de volta. Deixar os garotos em casa, ir até a casa do Kalebe, tomar banho, pegar minhas coisas, tomar um café e novamente pegar a estrada, saí de lá exatamente as 18:35.
Novamente não peguei movimento, porem desta vez a chuva não estava lá, ao invés disso uma lua maravilhosa que em alguns pontos sem luzes artificiais dispensava o uso de faróis. Novamente cantei alto e feliz, conversei com pedestres e motoristas que não respondiam, pensei em tudo o que acontecera desde a sexta a noite, do momento em que sorrindo me chamaram para apontar como a lua estava bonita, cheia, lá depois da janela, quando senti que havia feito a escolha certa ao não viajar na sexta e que seria um bom fim de semana. Pensei nas coisas que vi e ouvi na ilha, pensei nos novos amigos, nos velhos amigos, no mar, nas ondas, em como tudo o que existe e acontece está ligado e influencia todo o resto que ainda vai acontecer, em como a minha busca pessoal cruza e irá cruzar o caminho de muitas pessoas, agradeci alto a todas e a cada uma delas. Passando a tensão das curvas próximas a Joinville já estava praticamente em casa, mais cedo havia falado com minha mãe e sabia que haveria um jantar me esperando na geladeira e sobremesa com morangos para me dar as boas vindas.
- x - x -
Acredito que seja o maior post que já coloquei aqui, mas é um resumo rápido de 3 páginas do texto original que tem 23 páginas.
- x - x -
Obrigado pela paciência de ler e desejo-lhes mais paciência. Afinal, ela é o combustível pro sucesso em qualquer empreitada! ;)